O que será da função materna se a Falta faltar?

Palestra Loja Maçônica Campos Lobo
26 de abril de 2018

A Mãe e a Falta

O que será da função materna se a Falta faltar?

 

Como mãe e psicanalista desejo, cada vez mais, colocar luzes em um conceito importantíssimo que a psicanálise nos oferece e que toda mãe deveria pelo menos uma vez, no decorrer da vida, deparar-se com essa questão: a Falta.

Ao indagar muitas mães sobre o que almejam para o futuro de seus filhos, é quase inânime a seguinte frase: quero que sejam felizes. A partir desse desejo, como leoas protegendo seus filhotes, tentam afastá-los de qualquer ameaça que possam aproximá-los de algum tipo de sofrimento. Com isso cada vez mais, numa batalha herculana e, a meu ver equivocada, tentam oferecer aos filhos tudo aquilo e um pouco mais do que tiveram um dia: melhores colégios, mais diversão, mais oportunidades, mais diálogo, mais objetos, mais viagens, mais cursos, mais compreensão, mais, mais e mais. Aliás, só mais um pouquinho, é uma frase que sai com tanta naturalidade e frequência da boca deles, não é mesmo?

– Opa! Mais! Tudo isso e tanta “superproteção”?! Perigo à vista!

Voltando ao que as mães desejam: que a felicidade faça parte da vida de seus rebentos, para isso convido-as à seguinte reflexão: será preciso oferecer-lhes a Falta? – Sim! A Falta.

A Falta implícita nos inúmeros momentos em que os filhos não são atendidos prontamente, imediatamente, despertando assim a possibilidade de, ao vivenciarem frustrações, irem desenvolvendo a capacidade de esperar.

A Falta, quando aos poucos a mãe vai os retirando do centro de atenção de suas vidas e mostrando que ela, a mãe, possui outros interesses como o pai, o trabalho, outras pessoas, e não mais apenas os filhos. Isso é de extrema importância, pois não seremos prioridades para os outros o tempo todo. É a partir da relação com a mãe que os filhos devem aprender a lidar com a naturalidade de serem excluídos, ou de viverem essa experiência, a de ser excluído, com menos sofrimento.

A Falta, como limite dado aos filhos, com amor e consciência, suscita frustração, angústia, dor, perda, e promove, assim, a familiaridade com esses sentimentos, tão comuns.

A Falta é necessária para a estruturação satisfatória do aparelho psíquico, a partir disso progressivamente os filhos a internalizarão por meio de vivências, adquirindo entendimento de que a vida é permeada por perdas/faltas. Essas experiências poderão ser criadas e oferecidas por uma mãe atenta a sua função materna, que é a de fortalecer emocionalmente seus filhos, pois o sofrimento faz parte da vida e eles devem aprender a não temê-lo.

Uma mãe amorosa é também a mãe que oferece a Falta, estimulando os filhos a serem, autônomos, independentes, confiantes, fazendo com que aos poucos eles possam perceber que a mãe não é mais tão necessária. Por meio disso, promove-se o ingresso deles em outra fase e, assim, sucessivamente. Por mais que a amem, será possível viverem sem ela. Como filhos maduros, eles poderão sentir tristeza, saudade por estarem longe da mãe, o que é muito diferente de sentir angústia, desespero e insegurança, ou até pânico em muitos casos.

Para se construir a tão almejada felicidade dos filhos, é necessário saber sobre o que se deseja, tendo assim projetos e metas. Para desejar, é necessário conhecimento da causa, e, neste caso, para que isso ocorra, a mãe deverá aos poucos ir se retirando, por exemplo, por meio do silêncio, da presença e tantas outras formas singulares de apresentar a Falta, dando oportunidade para que o filho se constitua singularmente, sendo capacitado para que possa construir suas respostas, suas teorias, seu caminho, sua verdade, encontrando assim sua felicidade.

Se uma mãe ficar grudada ao seu filho, simbioticamente, confundindo-se com ele, projetando-se nele, misturando-se com ele, pensando por ele, fazendo por ele, decidindo por ele, resolvendo os problemas dele, estaremos presenciando uma relação de dependência e de desafeto, em que o filho pode vir a ser o objeto dessa relação. Penso em desafeto, pois estará sendo minada a oportunidade de ele constituir-se forte o suficiente para suportar as adversidades que a vida apresentará, perdendo a possibilidade de poder escolher seu futuro e se realizar, responsabilizando-se por essa escolha. Numa relação na qual não existe espaço para Falta, verifica-se um emaranhamento em que não é possível identificar-se separadamente as pessoas, em suas singularidades.

Numa relação amorosa a Falta está presente e com ela uma relação na qual as diferenças são marcadas e valorizadas. Portanto, o amor é um processo de libertação permanente em que a Falta não pode faltar jamais.

 

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